12 de setembro de 2016

Ela (Ligação) III


O dia corria de vento em poupa. Tinha acordado cedo, ido ao mercado, deixado às coisas do almoço prontas, a casa em ordem e enquanto esperava a maquina acabar de bater a roupa, fumava na varanda (as desvantagens de morar sozinho). Desde que passei o numero pra ela, cada bip de mensagem ou mesmo uma ligação, acelerava meus batimentos. E assim foi por alguns dias, até que a ansiedade cessou e dei o assunto por esquecido. Se não ligou até agora, provavelmente só falaria com ela novamente se fosse ao bar. Estava enterrando a guimba no cinzeiro quando o celular chamou. Continuei sem pressa o que estava fazendo, imaginando ser um amigo ou mesmo um familiar. Talvez um convite pra ir ao clube já que o dia estava favorável, ou mesmo um volta no shopping pra um café. Empurrei o cinzeiro pro canto do beiral, não tinha o costumo de fumar dentro de casa. Caminhei até a mesa pra ver quem chamava. Assim que visualizei “restrito”, senti subitamente o ar faltar. É claro, poderia ser telemarketing, banco ou qualquer uma dessas ligações inconvenientes. Mas não. Eu sabia que era ela. Maldita!  Claro que de cara, não me deixaria saber seu numero. As mãos foram tremulas até o aparelho e tentei controlar a respiração. Não queria parecer ansioso ou nervoso. E também, poderia não ser ela e ai o mico seria fatal. Respirei fundo, atendi... “Oi”.  

A voz veio jovial e moleca do outro lado. Caralho, era ELA! Sequer questionei o numero privado. E tentei parecer descontraído o máximo que pude. Mas como era astuta, ardilosa e sensitiva essa mulher (tirava sarro e usava as minhas emoções contra mim sempre que percebia como eu estava do outro lado da linha). Deus, ela era o demônio. Por algumas horas falamos sobre a família, sobre o que estávamos fazendo naquela tarde. Em alguns momentos nos provocamos, embora eu já estivesse totalmente fora do controle desde o “oi” dela ao atender a ligação. Alguma coisa nela me acelerava inteiro. Me deixava completamente fora de mim. Era como se ela tivesse todo e qualquer controle sobre os meus sentidos. E sobre o tempo, ficamos mais de 4 hrs pendurados naquela ligação. E nem percebemos que o dia já estava virando noite. Ao fundo podia se ouvir alguns ruídos, do meu lado o cachorro maldito da vizinha, crianças na rua, carros e todos aqueles barulhos urbanos. Do lado de lá, vozes ao longe e cantos de pássaros, musica. Ela estava no sitio, cercada de pessoas, e por alguma razão, resolveu me ligar. Também não perguntei por que, sabia que ela não era o tipo de mulher que estudava ou planejava o que fazer, já há conhecia um pouco, sabia que ela era impulsiva então aproveitei outra vez, cada minuto. Se ela pudesse ver a cara de idiota que eu fazia a cada sorriso alto que ela dava, se ela pudesse sentir como meu corpo reagia cada vez que eu percebia seu tom mudar ou sua respiração alterar o ritmo. Ahhh eu estava apaixonado por ela. Completamente apaixonado.

Naquele dia eu tive certeza, eu não estava sozinho naquela relação. Decidimos tentar, porque não!? E foi naquele dia, naquela tarde quase noite, que ela foi literalmente minha. Conectamos nossas almas, nossos sentidos, nossas emoções. Desde então não conseguia deixar de falar com ela um só dia. Fomos nos adaptando, priorizando o tempo um pro outro. Deus, ela passou a acordar na minha cama! Sempre se queixando de estar feia e amassada, cobria o rosto brava quando me via sentado do lado da cama esperando ela despertar toda esculhambada. Por mais que eu dissesse, ela nunca acreditava, mas essa era a coisa que mais me encantava. Aquela cara marrenta e amassada, aquele cabelo emaranhado esparramado no meu travesseiro, era de cair o queixo, vê-la dormir, totalmente vulnerável, liberta de suas amarras e armaduras era fascinante. Linda como ela é. Desarmada. Aquele gênio indomável, aquela mulher fatal e tão cobiçada, agora era minha. Eu saia de casa sem querer sair, recusava os convites sociais só pra passar mais tempo com ela. Me estressava quando por alguma razão não conseguíamos nos ver. Eu respirava aquela mulher, me alimentava dela. Nada antes dela parecia me fazer falta, e agora, eu não conseguia me sentir completo senão com ela.

Eu corria contra o tempo pra conseguir uma brecha, um momento, um minuto com ela. Até nossos conflitos e discussões me faziam bem. Aquela cara retorcida, seu cenho enrugado de nervoso. Eu puto, cerrando os punhos, queria esganá-la, mas puta que pariu. Como aquela fúria me excitava. Nem por um momento eu conseguia odiá-la. Pelo contrario, muitas vezes eu arquitetava uma discussão, calculando que seria boba, pra vê-la nervosinha mas nada com ela era insignificante. E sua mania de tempestuar tudo, conduzia qualquer assunto ao extremo, fosse qual fosse. E isso não era problema, não pra mim. Fazer as pazes com ela, era a melhor parte do meu dia, noite, foda-se. Eu sabia, foi por ela que esperei toda a vida. Mas o tempo é bem cruel quando quer e o destino também, e alguma coisa começou a sair dos trilhos além das nossas emoções e sentimentos arrebatadores. Acabei fazendo algo do qual não tenho orgulho, mas em nome do que vivemos, preferi contar. MALDITA hora que decidi isso. Acreditava que tudo que estávamos vivendo, seria forte o bastante pra superar, pra apagar, pra perdoar o que fiz. Afinal, eu também a perdoei. Mas não foi assim... E eu não sei se por orgulho, por capricho, por raiva, ela me colocou pra fora.

Isso não era novo, toda vez que brigávamos feio ela além de atirar tudo pra cima de mim, me mandava partir. Mas os olhos dela não me convenciam e eu a peitava. Ora e outra a segurava, chacoalhava e berrava que a amava e que nada que ela dissesse me faria partir. Seu rosto avermelhado ia mudando, seus olhos inundados me miravam a alma e tudo acabava bem. Mas desta vez não houve copos e pratos arremessados, o tom veio alto, mas não a ponto de me fazer tampar os ouvidos. Isso me assustou. Muito. Então fiz o que ela pediu quase sem dizer exatamente o que eu deveria fazer. Juntei tudo que tinha e sai, rezando pra que antes que eu batesse a porta ela gritasse, falasse qualquer merda, xingasse, me batesse mas que de alguma maneira, me impedisse de sair. Já estava quase na frente do meu carro quando ouvi a porta bater. Joguei minhas coisas no banco de trás e parti. Vai começar tudo de novo. Peguei a porra do maço no bolso, acendi um cigarro, olhei pro celular e pensei... “quando essa fúria passar, ela vai me ligar”.
Por. Bell.B

14 comentários:

  1. Aaaa caracas, vou ter que esperar outra vez 😢
    Eu adoro seus contos Bell, é muito doido como isso prende. Não demora pra postar rsrsrs

    E não sei se vai contar, o que foi que o rapaz fez pra ser despejado, contaaaaaa!

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    1. Boa noite... Brigada, é sempre muito gostoso chegar aqui e ver que esperam por mais (da minha loucura) dos meus rabiscos, quanto a demora, bem, escrever pra mim é muito complexo, embora nada seja "maravilhosamente escrito ou elaborado" tudo depende de fatores cruciais pra mim. (Humor, lugar, emoções) por isso às vezes os rabiscos vem seguidos ou em doses homeopáticas. Culpa da minha instabilidade e quadripolaridade emocional kkkk

      Já o que "ele" fez, bem... talvez eu conte num próximo episódio.

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  2. Vivi pra ver seu novo estilo. E, caralho, essa história parece tanto uma que conheço que... aff. Imagino que já tenha tudo pronto... me manda uns spoilers? Embora eu acho que sei como isso "acaba" rs

    até o próximo. Não vou indicar música hoje... se o fizesse setia alo depre, então hj deixa o pause ali

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    1. Ahhh deixe de bobagens. Nunca chegarei ao seu patamar. Escrever "invertido" é algo super novo pra mim, e só não digo que tem sido difícil por que existem as "bases verídicas e vividas". Pensei em nomear mas acredito que o "protagonista" acompanhe este meu cantinho (ainda) e possa não gostar. Mas enfim... como vc mesmo comentou, poderia ser a história de qualquer um. É engraçado como tudo é parecido no amor e nas suas chagas. A gente sempre acha que a dor maior é sempre no que vivemos e acabamos que descobrindo que existem vários amores como os nossos por ai. Ai ai...

      Tenho ouvido mesmo, incansáveis listas emos. Maldita veia "masoquista". rs

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    2. Ih fada... meu "patamar" não é bom, ele é doentio. Olha... sendo algo novo ou não, tu tens talento pra escrever "invertido". Nomear tem uma "saga" do blog que eu não nomeei personagens porque... bem, tu sabes quem eram "ele" e "ela". No demais as outras personagens (que vivem no mesmo universo, ou seja se um faz algo que sai no jornal o outro pode ler o jornal... porque minha megalomania literaria agora é tipo o universo marvel haha) tem nome. Quanto a dor... nem entremos nessa seara.

      Ainda a mesma playlist? Tô ouvindo umas velharias tipo Firework e roar (da katy), breakaway (da kelly klarson) e uns metal gotico (tipo nightwish, within tempatation...) pra dar uma viajada. Vou deixar uma só:
      https://www.youtube.com/watch?v=IdUWmUbdmz0

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    3. Ahhh "Katy/Tempatation" FODA PRA CARALHO. Ando assim também, de um polo extremo a outro. A (bola da vez) lista que toca aqui incansavelmente é "Sia" repetidamente 100 vezes (pra variar) "Freeze You Out" entre todas as outras que amo.

      Quanto a indicação, pqp, como já risquei ao som dela. Chega a doer o tórax (pra ficar mais pesado) rs

      E agora falando das patologias... Voltei aquele universo em que deixar doer é melhor do que lutar pra curar. (circulo vicioso) Pois é Prê, nós sempre vamos saber quem é quem e quando é quem.

      Foge um pouco de tudo que estamos falando e vivendo por ai, mas hj vou te deixar essa aqui, tenho parado nela tbm...

      https://www.youtube.com/watch?v=ek4yrsZGoew

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  3. Você consegue fazer com que minha imaginação flua a cada postagem.
    Teremos continuação ou acabou por ai? Ela ligou? Ou,ela simplesmente o deixou ir? E se deixou, foi por orgulho, por capricho ou por raiva?(como você mesma citou), creio que saibas o quão difícil é sentirmos que um homem nos ama verdadeiramente.E ela sentiu, ou não? (pergunto tendo quase certeza da resposta).

    Espero ansiosa o desfecho *-*

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    1. Boa noite, fico feliz que esteja conseguindo prender e ganhar espectadores (embora nem de longe, tenha sido a minha intenção).

      Qnt ao fim, acredito (em nota pessoal) que certas coisas nunca acabam. Assim como acredito e já até "risquei sobre isso" que muitas vezes, motivados pela raiva, agimos de formas estúpidas. Mas o que seria de cada história se não fossem os loucos e intensos impulsos?

      Sobre sua pergunta "ela sentiu...". Ela sente demais, e talvez esse seja seu maior problema. Ela sente o que virá, ela é mais bruxa do que fada. E o que muitos dizem ser um dom, ela nomeia praguejando ser "carma".

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  4. O "tal protagonista" nunca deixou de acompanhar esse seu "cantinho" ou qualquer outro, e quanto a "nomear" Bell eu NUNCA pedi ou pediria que vc me escondesse seja lá onde, mesmo pq eu NUNCA a escondi de ninguém, até mesmo pq eu amava quando dizia a todos que vc era minha.

    Desculpe invadir seu espaço mas era só para esclarecer... Boa noite.

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    1. Quando eu falo sobre mim, sobre o que sinto e o que emerge de dentro da minha alma, o "foda-se" é explicito. Não existem regras ou limites. Agora tenho feito algo inusitado. "Relatar" o que eu "supostamente acredito ter sido/estar sendo". E se tem uma coisa que sempre ira prevalecer como regra numero um "é a discrição". Por respeito e claro, acima de tudo "pela margem de erros e equívocos" que possam surgir no decorrer "destes rabiscos em especifico".

      Não é preciso coragem pra falar ou expor uma relação, mas é preciso muito cuidado pra descrever o "sentimento" de alguém. E esta regra não será quebrada aqui.

      Quanto a vc estar presente sempre, sei que sim. Eu sinto! Como disse há alguns leitores, esse é o meu carma... Sentir tudo demais.

      Esclarecer II. Vc é bem vindo em qualquer parte da minha vida. E a unica coisa que vc invadiu foi a minha alma, e se acha necessário se desculpar por isso, acredito que eu "não possa mais continuar a (d)escrer/riscar" essa história. Doce tarde MHS.

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  5. Como é? Vc "supostamente acreditava ter sido ou estar sendo o que vinha de mim? Ual... O que dizer dessa incerteza então?
    Erros e equívocos... sem comentários.
    Eu sei que vc sente minha presença Bell. Posso estar equivocado como bem diz, mas também sinto a sua.
    Vc pode até parar de riscar coisas que vivemos, mas vc gostando ou não tudo que me lembrar/nos lembrar eu vou postar no meu cantinho.

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    1. Vamos lá... Quando eu falo de mim, e descrevo as coisas que sinto, tenho total certeza e segurança sobre o que estou relatando. Quando disse que "poderia haver a possibilidade de erros e equívocos" foi no sentido de "poder estar relatando algo ou com muita intensidade ou com menos". Ninguém além de quem esta sentindo pode calcular ou mensurar um sentimento. Por isso eu coloquei em questão "a margem de erros". Acredito que se vc se viu, se identificou e soube que o "Simples protagonista" é você, eu não deva ter "errado ou me equivocado". E claro, agora esta mais que declarado, embora eu sempre tivesse CERTEZA de que mesmo sem eu dizer, você saberia EXATAMENTE de quem se tratava TUDO CONTADO AQUI. Assim como também tenho certeza de que VC SABERIA QUE TUDO ACABARIA VINDO PARAR AQUI!

      Eu nunca vou parar de riscar, e se um dia isto acontecer, "acenda as velas e como um quilo de jujubas (sem as azuis)" em minha homenagem por que eu já não mais estarei aqui. É impossível pra mim, conter, verter ou mesmo estancar essa minha "compulsão". E vc sabe disso melhor que ninguém.

      Quanto a vc escrever, cantar, se ver, nos ver e postar sobre, saiba que desde que saiu eu nunca em um unico momento sequer pensei ou mesmo passou pela minha cabeça que tudo que li e ouvi fosse pra outra mulher, senão PRA MIM.

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    2. Vc sempre disse me conhecer bem, o seu lado bruxa sempre adivinhou tudo que se passava comigo sentindo apenas minha respiração, então por ai vc já pode deduzir que tudo que relatou não tem/teve nenhum equívoco.
      Penso que te conheço a ponto de saber suas certeza e até mesmo de suas duvidas Bell, assim como sei também onde iria parar tudo que vc tem vontade de gritar.

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  6. Ahhhh é isso mesmo? O protagonista esta acompanhando vc descrever o ponto de vista dele? E agora que pegou, porque estou super curiosa em saber se vc esta acertando. Amo esse blogger <3

    .Carol.

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