28 de julho de 2017

Tudo é Reação




E sequer um cigarro aceso no mundo queima em vão. Nenhuma mão se movimenta voluntariamente para acendê-lo, se não para espantar o indesejável.

Garrafas vazias são sempre cheias de causas e consequências de causas. Todos os cortes retilíneos deixam escorrer a alma. Ou vice versa. Um quilo a mais nunca é só um quilo a mais. Um a menos também não. O stress não é repentino e a apatia tem um passado. Tudo é reação.

Um sonho interrompido é uma lembrança distante, como a de quando planejávamos dominar o mundo com o pessoal da terceira série; é uma saudade profunda daquilo que jamais se viveu. Palavras não são só palavras quando escritas no papel do ser que se é. Mas e quando não é ou não se conhece ainda? Ser o que? Ser mais, é o plano de todos para o futuro. Mas, pasme, o futuro não existe, ele é apenas uma imaginação abstrata e borrada numa moldura trincada. Trincada. Trincada. Um eco que faz repetir o medo de não conseguir alcançá-lo. Um choro ou um riso não são fundos fotográficos, penso e creio e defendo e bato o pé que são os extremos da alma querendo se expor. E tudo é questão de passado, e tudo é baseado nele, tudo que é, um dia, já foi e se fez ser. Meu Deus, que confuso. É puro caos, as pessoas.

Somos tudo o que não sabemos expor mas tentamos, em prol de um encaixe perfeito. A vida é feita para acabar e de nada adianta a renúncia e a bússola, o que não tem fim é o tempo, e só – e o que fica pairado sob as estrelas, enquanto um único olhar mira para cima de sua cabeça, após o fim que antecede o seu. Vai saber se questionando o invisível, aprende-se o que sempre se passou despercebido…

... Mas, independente de todo o incomensurável (roubo a frase de Lispector): A vida come a vida. Então, de repente, cantiga de ninar e brisa fria sopra o para sempre.
   É como eu sempre digo, desde que observei: Viver é um suicídio
- Joyce Lima

14 de julho de 2017

Estragou Tudo

Depois do sexo, olhei pra cara dele como despedida. Vou sentir sua falta, pensei. Coloquei a roupa sem muita vontade e, quando vi, já estava dentro do elevador. As pernas doíam, a cabeça acelerava e, claro, mal conseguia andar de tão assada. Sempre foi foda, sempre foi gostoso, sempre foi tudo de bom. A diferença? Ele virou-se e disse "te amo". Não como amigo. E isso era foda. O amor desbota qualquer amizade colorida. Estraga qualquer lance legal que você tenha com alguém. Com ele era incrível. Gozava feito louca. Puta que pariu. Mas não deu mais liga. Não depois dessa confissão. Da confusão. O PA perfeito se apaixonou. Jesus. Não sei o que é mais azar. E parece até que ouço Caetano dizer "toda razão, toda palavra, vale nada quando chega o amor". Eu não podia correr o risco de brincar. Melhor manter a amizade cinza que deixar ele colorir demais a coisa. Inventei uma desculpa estranha e saí. Triste, mas pelo menos saciada. Não tô podendo correr o risco de me envolver tanto assim. Valeu, foi bom, adeus.
 - Desconheço Autoria 

Paradoxo

Você sempre foi o que eu tive de mais secreto em mim. Aquela lágrima de saudade que ninguém nunca descobriu, aquele impulso pra ir em frente que ninguém nunca entendeu. E assim, mesmo de tão longe, você consegue estar tão aqui. Tão dentro de mim, tão nas entrelinhas do que eu vivo, tão nas noites que eu não durmo.

Eu te amo tanto, que eu mantenho a distância segura que nos separa e te dá paz. Amo tanto, que já me acostumei com a ideia de que estar longe te faz bem e sofro sozinha com todo esse amor espremendo meu peito contra uma realidade fria e sem graça, longe do teu calor e do teu sorriso.

O meu amor é instável a ponto de sumir quando eu vejo Closer, mas é intenso a ponto de não acreditar que o amor como eu sonhei é só um sonho. Meu amor é tão burro, tão imbecil, que ele acredita que agora pode dar certo, que agora seremos felizes, que agora tudo na minha vida vai mudar. O meu amor é teu, tão teu que não se importa com a felicidade do teu sorriso longe, desde que ele se mantenha sorriso.

O meu amor é uma mistura de passado e futuro. É uma falta de presente que angustia e amedronta, mas anestesia. E eu vivo inerte sentindo tanto (tanto) amor, que eu viro pro lado, coloco a mão na minha cintura como você fazia, imagino seu rosto e durmo. E isso basta. Meu amor é tão humilde, tão singelo, que ele continua sendo amor só por saber que você existiu um dia. Ele não quer a sua presença, não exige seu carinho, não lamenta pela sua perda.

O meu amor é a fé que eu deposito todos os dias em alguma coisa que possa tirar todo esse peso e essa dor de mim. É aquele sentimento de crença meio burro, que faz de mim uma metade de online casino amor. Meu amor é aquele que um dia fez de você o primeiro, que te transformou em último e que me fez parar de acreditar. E eu parei, porque eu te amava tanto, que eu não sabia o que fazer com esse amor e acabava te odiando.

Meu amor me dá tanto medo, que eu te rebaixo. Eu fico tentando pensar nos defeitos que você tinha, naquele dia que você não foi atrás de mim e eu olhei pra trás a cada passo que eu dei. Eu tranco a porta do quarto, ouço Damien Rice no último volume e choro. Choro porque nós ouvíamos Damien Rice e porque eu imagino que quando a música acabar e as minhas lágrimas secarem um pouco de todo esse amor vai embora. Os meus olhos incham, meu amor também e ele nunca vai.

Meu amor é o que me faz sentir uma sede que nem mil litros de água abrandariam, é o que me faz perder o apetite de comida porque a minha fome de amor é ainda maior. Meu amor é a grande quantidade de vírgulas nos meus textos, porque a tua objetividade me dá calafrios. É a lembrança da vista da sua janela e da sua visão do mundo, é uma saudade doída da sua ajuda para fazer cálculos e para tomar decisões. O meu amor é a própria falta de decisão.

Meu amor é a possessão incrível que me faz manter tanto amor em silêncio. É o absoluto egoísmo e a mais extrema doação. Eu tenho tanto medo de perder o meu amor, que eu já não consigo respirar direito por medo de sufocar um pouco que seja desse sentimento. Meu amor é invisível, é particular. Não consigo dar nem um pouco dele a qualquer um, porque ele é só teu. Mas eu também não quero dar ele a você, porque nem você saberia o que fazer com tanto.

Meu amor é a vontade de gritar no seu ouvido que eu existo, é a vontade de abrir a caixa vermelha com as suas lembranças, é a vontade de te ligar e te propor uma fuga. O meu amor é o medo que eu tenho de acordar, e a vontade que eu tenho de acordar pra ver se você me vê. O meu amor é o meu paradoxo, é a minha música, é a minha poesia.

O meu amor é o que eu sinto de mais forte, é o que eu tenho de mais verdadeiro. Meu amor é aquele que eu escondo, que eu fujo, que eu desencontro. É aquele que me sufoca tanto que eu perco o medo, a vergonha, a compulsão. É aquele que me faz perder o rumo e que me faz voltar sempre pra você. É aquele que não deveria ser escrito nunca, mas que não consegue mais calar. É aquele que morre e renasce todos os dias, cada vez mais forte, cada vez mais meu. Cada vez mais teu amor.
- Por Mariana Melz

7 de junho de 2017

Nunca Seremos



Me olha mas não me ultrapassa, rejeita mas não me delimita à tua recusa.
Não se compreende em tuas mentiras e me beija como se a tua saliva quisesse amarrar pra sempre as minhas pernas. Cantos tão sombrios que insisto percorrer contigo em deboche pelas madrugadas… Vem, dá-me a tua mão, arranca do meu peito essas tuas raízes rastejantes, mergulha tua língua amordaçada ao gosto amargo de outros homens em minha língua, alimenta essa vontade de te morrer em mim… Como é possível brotar em vida se em cada gota umedeces com teu líquido porco essas minhas sementes carunchadas, retraídas na casca mentirosa de um casulo de osso?

Eu não floresço sufocado em tanta água. Não era possível que tu não me amasse como se ama uma queda? Que me quisesse como o deserto anseia por ventos amenos? Você me ajuda a construir armadilhas nas quais cairemos juntos. Era preciso tanto que você me amasse por aquilo que escrevi. Era preciso que demorasse os olhos nos meus abismos. Não que me jogasse lá de cima, sobre teus barrancos escorregadios, altíssimos demais pra minhas vontades de escalada. Não percebes que as coisas entre nós foram ficando cada vez mais assoberbadas por uma violência contida?

Como eu poderia ser salvo ou te salvar se, em cada beijo, me sentia com uma mão limpando teu vômito e com a outra te ajudando me afogar a cara na privada? Sinto por ti vontades tão violentas como se me fossem ​ arrancados os olhos, sabendo que me era negado a vista, eu sempre sentiria falta daquilo que deveria ser meu. Serei sempre uma velha cega tateando tua vida no escuro com minhas fracas tentativas receosas de tropeço. Colecionamos tantos fracassos que nos foram impostos que mal conseguimos nos movimentar em fracasso próprio.

Mas ainda assim me olhas, com teus olhos arregalados, rejeitados​ por uma infância de concreto a cerca-lhe em horizontes promíscuos. Como se me dissessem que poderíamos sim, ser todo o fracasso de quem prefere as aparências da carne, de quem se faz vítima aos próprios pecados, às misérias mágicas a salvar-te de ti. Lugares intocados que meus dedos receosos agora tocam sem o menor interesse por tuas palavras que se mentem sóbrias para tuas terras lamacentas demais… Sufocantes demais… Movediças demais… Não amar você foi o jeito que encontrei de me violentar menos nesse jogo de ruínas. Uma necessidade tão grande de fazer de nós uma poesia não contida em cada bago de frase, em cada soco de linha… Mas não adianta vazar primavera pelos poros das palavras se de nossas artérias entrecortadas apenas jorram barrentos sentimentos de culpa pelo o que não fomos, pelo o que, assustados, não seremos. Não seremos…
                                                              - Por. Michael Letto

28 de fevereiro de 2017

Só Te Comer


Há umas horas você perguntou se o que eu queria com você era só sexo. Mas que pergunta idiota. O que mais poderia ser? Com esse corpo, sem frescuras, com a sua experiência de vida, o que mais eu iria querer com você? Ora bolas, como diriam os antigos, mas que perguntinha. Por que você acha nós trocamos, só hoje, (eu contei, não precisa conferir) mil duzentas e quarenta e sete mensagens no celular? Pra que você acha que eu sou gentil, fofo, engraçado e solícito com você? Pra te comer, pra que mais? Por que eu passo horas pensando em você, fico esfuziante quando você me manda mensagem e quase explodo de alegria quando você me conta que falou de mim pros seus amigos? Porque eu só quero te comer, deveria ser óbvio.
Por que diabos eu ficaria em um dia duas horas e cinquenta e dois minutos e no outro duas horas e vinte e cinco minutos ao telefone com você? Um homem faz tudo por sexo. Vai dizer que nem imagina por que eu fico tão feliz quando descubro que temos absolutamente os mesmos gostos para filmes e lugares para viajar, por exemplo? Santa ingenuidade, Batman. Por que mais, Deus, eu ficaria imaginando nós dois em uma pousada romântica em algum lugar paradisíaco, isolada de tudo, sem telefone, durante vários dias? Pra te comer, não teria outra razão.

Eu não tenho nenhum motivo para cogitar te levar à praia – que eu detesto – quando você vier me visitar a não ser querer sexo com você. Muito menos eu tenho alguma razão para me preocupar se você vai reclamar da bagunça da minha casa, do pelo dos gatos ou do fato de eu só usar camiseta de desenho animado ou com frases engraçadinhas. Quer dizer, tenho um motivo: comer você. Não se engane, tudo o que eu faço é pra te comer. Me preocupo com o que seus amigos e sua família pensariam de mim, tento ser menos ansioso e menos desesperado, passo horas inventando um compromisso na sua cidade só pra ter a desculpa de “caramba, tô pertinho de você, vamos tomar um café?”. Faço tudo isso com o único e certeiro objetivo de te comer. E quando eu penso se você preferiria morar na praia ou na serra? Ou quando imagino se você gostaria de ter um pitbull que nem eu? E quando meu coração acelera de ver “digitando” no celular enquanto você me escreve uma mensagem? Tudo pra te comer, só sexo. Não se deixe enganar pela minha fofura e meu pretenso romantismo. É tudo pra ganhar as garotas. No fundo eu só quero te comer. Quando eu imagino nós dois fazendo uma viagem romântica para a Europa – e automaticamente ignoro o meu enorme cagaço de avião – tudo o que eu quero é te levar pra lá pra te comer na Europa. Só, mais nada. Curto e grosso. E quando eu penso que nos daríamos super bem se morássemos perto, ou até se morássemos juntos? Jesus, só me passa pela cabeça comer você. Já disse, não se deixe enganar. Eu engano bem. Vai por mim. Aliás, uma chance: por que você acha que eu estou escrevendo esse texto?
                                                                - Por. Léo Luz

25 de janeiro de 2017

Addicted

Só tire o cigarro da minha boca se for para beijar-me. Só tire um vício de mim se for para me dar quaisquer outro no lugar. Só tire de mim o passado, se for me dar um presente que preste e um futuro que eu não vá me arrepender. Só tire de mim a bebida, se no lugar você me der uma desculpa plausível para me manter sóbrio nesse mundo filho da puta. Só me tire do chão, se for para me levar ao céu com apenas passagem de ida. Só me faça acreditar em suas promessas, se você for cumprir uma a uma. Só me diz que vai ficar, se você realmente for ficar. Caso contrário, meu bem, me deixe tragar, me deixe viciar, em um ser inanimado do qual não me deixará se eu não deixar, do qual posso confiar sem me arrepender e, por último, mas não menos importante: Se for pra foder, que seja na minha cama ou na sua, no chão, no banheiro, no sofá, na rua, no carro ou onde mais o prazer estiver, mas que não foda a minha vida. Grato.
                                                             - Desconheço Autoria

3 de dezembro de 2016

Cut


E se eu te mostrasse o meu lado negro você ainda me seguraria nessa noite?
E se eu abrisse o meu coração pra você e mostrasse o meu lado fraco... O que você faria?
- Pink Floyd

6 de novembro de 2016

Ela (Resposta Part II) VIII

Sei que demorei um pouco pra escrever essa segunda parte, mas não o fiz antes por N razões, depois dos últimos acontecimentos e "fatores" acredito que esteja pronta e essa seja a melhor forma de (me) fazer entender. Vocês leram aqui, relatos e verão muitas semelhanças no "hoje" com muitas coisas que há muito, já são "passado". O que é perfeitamente normal quando falamos sobre sentimentos, quando relatamos emoções, quando expressamos as avalanches e catástrofes que são os relacionamentos amorosos. Afinal, não são meras coincidências ou repetições, amor é amor e sempre que uma pessoa esta enfeitiçada, tomada, possuída por essa sensação, a história se repete. Umas permanecem, outras terminam, outras são interrompidas pelo destino, outras acabam terminando antes mesmo de começar. E a única certeza que se tem, é de que até que aconteça de novo, aquele amor será único.

A questão é “se é amor, como pode acabar?”... Dizem que quando é amor é pra sempre, que quando é amor é diferente, que só se ama uma vez. E daí vão nascendo inúmeras metáforas e parábolas e contos e histórias e infinitas descrições de que a porra do amor é um sentimento que nunca será substituído, de que nunca será uma sensação que se repetira, de que quando acontecer você imediatamente saberá que é o tal “grande amor da sua vida”. E ai... Surgem na contrapartida, os pessimistas, os amargurados, os infelizes, os invejosos, os mal amados. Aqueles que aparecem sempre com um “coringa” de outro naipe pra foder com a sua “canastra” limpinha.  “Amor não existe. É só sexo! Dá pra amar uma pessoa e só querer trepar com outra. Pra que se prender? Ele(a) não te ama. Quem vai contar? Abre os olhos.” Pois é... Eu bem sei como é isso. E pra variar, vou à contra mão de tudo que dizem e afirmo que o amor tem mais formas do que a quantidade de vezes que podemos ver desenhos nas nuvens. Que o amor pode acontecer na vida de uma única pessoa mais vezes do que ela é capaz de contar os pingos de chuva. E que não importa o que dizem o que pesquisem o que escrevam, eu vou sempre acreditar no que eu estou sentindo.

Ele entrou na minha vida de uma forma muito peculiar. Acredito que inicialmente não havia um plano B. E que esbarrar em mim foi de duas uma “ou obra do destino ou mero acaso”. Essa é uma questão que talvez nem que queiramos, iremos descobrir. Mas isso não importa o que realmente vale enfatizar (ao menos pra mim) é que ninguém fica sem querer ficar ou parte sem querer partir. Então ficamos, ficamos próximos, viramos amigos, e a intimidade foi nos dando espaço. Fomos nos espalhando um na vida do outro, juntando os planos e logo, estávamos consolidados as juras e promessas que acabam se profetizando em meio a conversas bobas, em intervalos de filmes onde aquela cena fictícia nos convence de que fora da tela também é possível, ou através das dezenas de músicas enviadas que cantaram o que sentíamos como se fossem a nova forma de enviar cartas.

Eu levei um tempo pra me permitir, pra abrir mão dos meus medos, demorei pra acreditar que porra... “desta vez era amor”. Eu já havia passado perto desse tal de amor algumas vezes, tudo em mim sempre foi tão intenso, tão latente, que sinceramente, não acreditava que eu poderia sentir algo “muito diferente” do que já havia sentindo das outras vezes. Na verdade o meu temor era deixar que esse “tal amor” entrasse e me machucasse novamente. Mas ele foi astuto, jeitoso e muito convincente, e com isso, lá estava eu, acreditando mais uma vez nas histórias que batia no peito pra dizer que só aconteciam no cinema ou nos meus livros preferidos de cabeceira (é eu ainda sou dessas que empilha livros já lidos, no criado mudo). Lá estava eu, dando brechas, abrindo as janelas e tirando o pó das prateleiras do meu coração. E quando ele se mudou definitivamente pra dentro do meu peito, todo aquele peso que eu carregava foi desaparecendo.

Com ele, o amor parecia leve. As manhãs não eram mais pesarosas, minhas tardes já não passavam mais arrastadas, e a noite, minha parte favorita, era a que eu queria que passasse mais apressada, comecei a sentir uma necessitada absurda de ser acordada por ele "me sentia meio Bela Adormecida". Tudo virou do avesso, mudou de ritmo, me perdi nas datas agendadas a marca texto e discutia constantemente com o tempo. Todas as minhas prioridades deixaram de ser importantes. E fiz com que minha rotina se encaixasse na dele. Era tudo tão perfeitamente desorganizado que todo nosso roteiro errado, dava muito certo. Comecei a deixar os fantasmas de lado, passei a sorrir para o sol (o que é coisa muito rara) e dei inicio aos novos projetos. E mesmo sabendo que o terreno era arenoso, estávamos alicerçando nosso castelo. Piamente acreditei que nada, nada poderia ruir meu lar. Afinal, era nos braços dele que eu me sentia em casa. Fosse onde fosse, estivéssemos onde estivéssemos nada mais poderia me assustar, com ele eu não tinha mais medo de nada. Éramos nós contra todos. E assim foi por muito tempo, tempo o suficiente pra eu entender que o amor não exige modificações, que amor não pode ser construído em cima de promessas, que quando é amor, ele simplesmente é.

O amor não requer abdicações.
O amor não enjoa.
 O amor não muda as pessoas.
O amor não é opcional.
O amor lhe faz agir no impulso.
O amor te arranca do chão. 
O amor não se esconde.
O amor não machuca.

E foi então que me dei conta de que entre as oito principais regras eu estava violando a mais importante e não mencionada. Não há regras no amor. Então percebi que eu estava agarrada as promessas, as juras, os sonhos, aos clichês e metáforas. Criando sozinha, bases nas minhas próprias convicções e perspectivas. A minha cede de cura, o meu desespero pelo estancar das chagas passadas, o meu medo assustador de sentir meu coração outra vez ser partido, fez com que eu me apegasse a cada promessa de “felizes para sempre” como quem descobre a cura do câncer. Sem me dar conta de que assim como nos contos de fada, tudo que havia sido dito, prometido, jurado, vinha sendo decretado somente pela minha necessidade de acreditar. E de repente me vi vivendo num livro. E eu estava chegando ao capitulo final onde surpreendentemente a historia da uma puta reviravolta inesperada. O herói assassina o amante da esposa, a mocinha abandona o coral e o bom moço prometido e monta na harley de um desajustado sumindo na estrada. A carola é pega trepando com o encanador, e o velho da casa assombrada no final da rua aparece casado com uma garota que jurariam ser a bisneta dele. Todos esses pontos abririam “dezenas de pontos de vista”, dariam margens a centenas de especulações. Eu, ele, o ex herói, a nova ovelha negra, a recém vadia, o velho babaca... Quem pode apontar rotular, acusar? Quem pode, além de cada um de nós, saber como chegamos até cada ponto de nossas vidas? Quem, senão aquele que passou, sentiu e viveu, pode avalia e nomear com propriedade se tudo foi ou não motivado por amor? Somente nós, os protagonistas de nossas vidas, os roteiristas de nossas histórias, os donos de nossas emoções, poderemos classificar, julgar e decidir com propriedade o que é amor.

E o que posso afirmar com certeza é de que foi amor. Foi amor no primeiro roçar de lábios. Foi amor na primeira manhã mal humorada, foi amor na primeira explosão de fúria. Foi amor quando cortei a conversa e cantei do outro lado da linha. Foi amor na primeira dor de despedida ainda que a volta fosse breve, foi amor no permanecer em silencio enquanto a raiva emudecia a fala. Foi amor no romper em soluços com a dor da verdade, foi amor na rouquidão da garganta depois dos berros enfurecidos de ciúmes. Foi amor ao atirar os copos e cobrir o assoalho de cacos. Foi amor enquanto eu jogava suas roupas lá de cima, no capo do carro. Foi amor quando me deitei sozinha, vestindo sua camisa e assim tentando te sentir mais perto. Foi amor com juras rompidas, promessas quebradas... Será amor, quando esta dor passar, e a ferida fechar e eu sorrir de leve ao olhar a cicatriz deixada. Pra sempre será amor, ainda que eu leve uma vida, colando os pedaços do meu coração que se estraçalharam no chão do quarto mais uma vez, quando atirei contra a parede, seu porta retrato. Porque quando é amor é, e mesmo que termine. Nem com os erros cometidos, nem com os pecados apontados, nem com os corações partidos, se finda.
Por. Bell.B 

15 de outubro de 2016

Ela (A Carta) VII


Durante o dia, os afazeres, os compromissos, as visitas constantes. Alguns fatores a fizeram mudar a rotina e se tinha algo que a deixava completamente “transtornada” eram mudanças que exigissem mais do seu físico. Mexer em seu relógio biológico era tão perigoso quanto atirar pedras numa colmeia. Mas uma coisa que essa garota tinha de “incrível” era a capacidade de “sacrifício”. Se tinha algo que literalmente a fazia esquecer-se das suas overdoses de sono e seu total desprezo pelas primeiras horas do dia, era a família. Em resumo da opera, sua construção de cartas estava completamente no chão. E toda aquela sua ânsia de controle sobre tudo, toda aquela postura firme e convincente de “segurança” estava a um fio de ruir assim como seu castelo. Parece que de tanto dizer “meu lado certo é o errado”, assim se fez.

Fora todos os seus problemas (algo que não era especificamente só com ela, afinal, quem de nós não tem problemas?) ainda havia aquela situação indigesta. E voltamos a tão cansada e sofrida tecla... O que foi dito, o que não foi dito, o que talvez nunca seja. As duvidas, as certezas, as respostas, as perguntas. Tudo parece caminhar em circulo. E você fica ali, no meio de tudo esperando que ora ou outra, a coragem vença e resolva aquele emaranhado de inquietações que lhe causam tanto medo. Não é novidade pra ninguém que quando ela adota o silencio, a porra ficou seria. Logo ela, que fala pelos cotovelos, que eleva o tom por qualquer bobagem, que desce do salto e atira copos, talheres, que argumenta de peito cheio, quando se cala, de duas uma. Ou as palavras sumiram pelo choque, ou esta literalmente ferida por dentro. E ele a feriu, mas ela sempre arrumava uma maneira de se reinventar, de se restaurar, de lidar com a dor que vez por outra vinha forte e que bizarramente, ela a fazia aliviar buscando por ele. Entre os livros, sapiando os canais da TV, ouvindo repetidamente as canções que descaradamente “roubaram” pra eles, relendo suas cartas, ouvindo uma, duas, três, quatro e muitas vezes até dormir, os áudios dos seus melhores aos piores momentos, que salvou ironicamente numa pasta, nomeada “delete”. Sadismo? Masoquismo? A essa altura, o único nome que ela conseguia dar a essa “tortura” era “sinto muito, sinto mesmo”.

E de sentir ela entendia, ao menos do sentir dela. Por mais que se calasse, que se segurasse tudo que ela deixava de dizer, aquilo gritava constantemente em seu peito. Por mais que ela tentasse disfarçar, continuar com sua vida, vez ou outra suas emoções passavam pela apertada aresta e se faziam enxergar. Fosse no marejar dos olhos no meio de uma conversa casual num churrasco de domingo, ou sozinha, pega repentinamente no banho ou mesmo passando um café no meio da madrugada sozinha na cozinha. As coisas com ela não tinham aviso, não havia alertas ou toques de recolher. E quando acontecia, ela sequer era capaz de conter. A avalanche de raiva, a inundação do choro ou mesmo a euforia do riso, simplesmente rompiam. E com isso ela estava acostumada, fosse o que fosse, vinha e pronto. Ela só precisava de um tempo, daquele tempo (maldito tempo). Dela com ela. Onde nada nem ninguém poderia ou conseguiria salva-la. Ela havia adotado essa técnica como rota de fuga. Como se em seu coração houvesse uma passagem secreta (ou um quarto do pânico, já que quando ela entrava naquela porra de bolha, ou casulo ou sei lá que caralho a quatro, não saia por nada até se sentir segura).

Noite dessas, ela se levantou (tem se levantado muito) e notou que havia um envelope debaixo da porta. Cerrou o cenho, encolheu as pálpebras e se aproximou. Assim que o apanhou sentiu ressecar a garganta, percebeu que não havia remetente, sequer um carimbo que pudesse lhe dar pistas de quem o teria colocado ali. Mas seu coração ou seu sexto sentindo, seu dom místico (fada/bruxa como dizem por ai) soou o alarme. Respirou algumas vezes, tirou os fones e alinhou o envelope sobre a mesa. As mãos espalmaram a superfície gelada e o ar começou a faltar antes mesmo dela começar a passar os olhos no que estava escrito ali, se é que tinha algo escrito. Milhões de coisas passaram pela sua cabeça, agora a certeza era tão segura que dezenas de perguntas, respostas, novas, antigas, começara, a sufocar sua garganta e pesar em sua cabeça. Ela abriu o envelope e assim que sua retina passou nas primeiras palavras ela sentiu o frio percorrer-lhe a espinha. 

Rapidamente leu, depois leu mais uma, duas, e releu, e espremeu as palavras, e se alimentou das frases, e consumiu as emoções que vieram cunhadas nas palavras dele, e sentiu despertar a raiva que lutou pra adormecer, e seu rosto ardia respondendo a emoção que não podia conter. E seus olhos inundaram, e seus sentimentos acordaram como se nunca tivessem corrido o risco de morrer. Estaria ele tentando pela ultima vez mostrar a ela, que embora estivesse há 179 dias fora de casa, ela não havia em momento algum, deixado de estar com ela? Estaria ele, desta vez disposto há atropelar esses meses e provar pra ela, que não há lugar que ele queira estar, senão com ela? Estariam eles, dispostos a esquecer, a sentar e esclarecer todas as duvidas pra poderem deixar essas 4.296 horas pra trás e recomeçarem o resto dos seus dias juntos?

Ela apanhou aquela carta, colocou-a sobre a cama e mais uma vez leu, iria responder, desta vez diretamente, sem sombras, sem fantasmas, como sempre o fez. Do jeito dela, franco, sincero, direto. Na lata, como ela gosta dizer.
Por. Bell.B