7 de junho de 2017

Nunca Seremos



Me olha mas não me ultrapassa, rejeita mas não me delimita à tua recusa.
Não se compreende em tuas mentiras e me beija como se a tua saliva quisesse amarrar pra sempre as minhas pernas. Cantos tão sombrios que insisto percorrer contigo em deboche pelas madrugadas… Vem, dá-me a tua mão, arranca do meu peito essas tuas raízes rastejantes, mergulha tua língua amordaçada ao gosto amargo de outros homens em minha língua, alimenta essa vontade de te morrer em mim… Como é possível brotar em vida se em cada gota umedeces com teu líquido porco essas minhas sementes carunchadas, retraídas na casca mentirosa de um casulo de osso?

Eu não floresço sufocado em tanta água. Não era possível que tu não me amasse como se ama uma queda? Que me quisesse como o deserto anseia por ventos amenos? Você me ajuda a construir armadilhas nas quais cairemos juntos. Era preciso tanto que você me amasse por aquilo que escrevi. Era preciso que demorasse os olhos nos meus abismos. Não que me jogasse lá de cima, sobre teus barrancos escorregadios, altíssimos demais pra minhas vontades de escalada. Não percebes que as coisas entre nós foram ficando cada vez mais assoberbadas por uma violência contida?

Como eu poderia ser salvo ou te salvar se, em cada beijo, me sentia com uma mão limpando teu vômito e com a outra te ajudando me afogar a cara na privada? Sinto por ti vontades tão violentas como se me fossem ​ arrancados os olhos, sabendo que me era negado a vista, eu sempre sentiria falta daquilo que deveria ser meu. Serei sempre uma velha cega tateando tua vida no escuro com minhas fracas tentativas receosas de tropeço. Colecionamos tantos fracassos que nos foram impostos que mal conseguimos nos movimentar em fracasso próprio.

Mas ainda assim me olhas, com teus olhos arregalados, rejeitados​ por uma infância de concreto a cerca-lhe em horizontes promíscuos. Como se me dissessem que poderíamos sim, ser todo o fracasso de quem prefere as aparências da carne, de quem se faz vítima aos próprios pecados, às misérias mágicas a salvar-te de ti. Lugares intocados que meus dedos receosos agora tocam sem o menor interesse por tuas palavras que se mentem sóbrias para tuas terras lamacentas demais… Sufocantes demais… Movediças demais… Não amar você foi o jeito que encontrei de me violentar menos nesse jogo de ruínas. Uma necessidade tão grande de fazer de nós uma poesia não contida em cada bago de frase, em cada soco de linha… Mas não adianta vazar primavera pelos poros das palavras se de nossas artérias entrecortadas apenas jorram barrentos sentimentos de culpa pelo o que não fomos, pelo o que, assustados, não seremos. Não seremos…
                                                              - Por. Michael Letto

28 de fevereiro de 2017

Só Te Comer


Há umas horas você perguntou se o que eu queria com você era só sexo. Mas que pergunta idiota. O que mais poderia ser? Com esse corpo, sem frescuras, com a sua experiência de vida, o que mais eu iria querer com você? Ora bolas, como diriam os antigos, mas que perguntinha. Por que você acha nós trocamos, só hoje, (eu contei, não precisa conferir) mil duzentas e quarenta e sete mensagens no celular? Pra que você acha que eu sou gentil, fofo, engraçado e solícito com você? Pra te comer, pra que mais? Por que eu passo horas pensando em você, fico esfuziante quando você me manda mensagem e quase explodo de alegria quando você me conta que falou de mim pros seus amigos? Porque eu só quero te comer, deveria ser óbvio.
Por que diabos eu ficaria em um dia duas horas e cinquenta e dois minutos e no outro duas horas e vinte e cinco minutos ao telefone com você? Um homem faz tudo por sexo. Vai dizer que nem imagina por que eu fico tão feliz quando descubro que temos absolutamente os mesmos gostos para filmes e lugares para viajar, por exemplo? Santa ingenuidade, Batman. Por que mais, Deus, eu ficaria imaginando nós dois em uma pousada romântica em algum lugar paradisíaco, isolada de tudo, sem telefone, durante vários dias? Pra te comer, não teria outra razão.

Eu não tenho nenhum motivo para cogitar te levar à praia – que eu detesto – quando você vier me visitar a não ser querer sexo com você. Muito menos eu tenho alguma razão para me preocupar se você vai reclamar da bagunça da minha casa, do pelo dos gatos ou do fato de eu só usar camiseta de desenho animado ou com frases engraçadinhas. Quer dizer, tenho um motivo: comer você. Não se engane, tudo o que eu faço é pra te comer. Me preocupo com o que seus amigos e sua família pensariam de mim, tento ser menos ansioso e menos desesperado, passo horas inventando um compromisso na sua cidade só pra ter a desculpa de “caramba, tô pertinho de você, vamos tomar um café?”. Faço tudo isso com o único e certeiro objetivo de te comer. E quando eu penso se você preferiria morar na praia ou na serra? Ou quando imagino se você gostaria de ter um pitbull que nem eu? E quando meu coração acelera de ver “digitando” no celular enquanto você me escreve uma mensagem? Tudo pra te comer, só sexo. Não se deixe enganar pela minha fofura e meu pretenso romantismo. É tudo pra ganhar as garotas. No fundo eu só quero te comer. Quando eu imagino nós dois fazendo uma viagem romântica para a Europa – e automaticamente ignoro o meu enorme cagaço de avião – tudo o que eu quero é te levar pra lá pra te comer na Europa. Só, mais nada. Curto e grosso. E quando eu penso que nos daríamos super bem se morássemos perto, ou até se morássemos juntos? Jesus, só me passa pela cabeça comer você. Já disse, não se deixe enganar. Eu engano bem. Vai por mim. Aliás, uma chance: por que você acha que eu estou escrevendo esse texto?
                                                                - Por. Léo Luz

25 de janeiro de 2017

Addicted

Só tire o cigarro da minha boca se for para beijar-me. Só tire um vício de mim se for para me dar quaisquer outro no lugar. Só tire de mim o passado, se for me dar um presente que preste e um futuro que eu não vá me arrepender. Só tire de mim a bebida, se no lugar você me der uma desculpa plausível para me manter sóbrio nesse mundo filho da puta. Só me tire do chão, se for para me levar ao céu com apenas passagem de ida. Só me faça acreditar em suas promessas, se você for cumprir uma a uma. Só me diz que vai ficar, se você realmente for ficar. Caso contrário, meu bem, me deixe tragar, me deixe viciar, em um ser inanimado do qual não me deixará se eu não deixar, do qual posso confiar sem me arrepender e, por último, mas não menos importante: Se for pra foder, que seja na minha cama ou na sua, no chão, no banheiro, no sofá, na rua, no carro ou onde mais o prazer estiver, mas que não foda a minha vida. Grato.
                                                             - Desconheço Autoria

3 de dezembro de 2016

Cut


E se eu te mostrasse o meu lado negro você ainda me seguraria nessa noite?
E se eu abrisse o meu coração pra você e mostrasse o meu lado fraco... O que você faria?
- Pink Floyd

6 de novembro de 2016

Ela (Resposta Part II) VIII

Sei que demorei um pouco pra escrever essa segunda parte, mas não o fiz antes por N razões, depois dos últimos acontecimentos e "fatores" acredito que esteja pronta e essa seja a melhor forma de (me) fazer entender. Vocês leram aqui, relatos e verão muitas semelhanças no "hoje" com muitas coisas que há muito, já são "passado". O que é perfeitamente normal quando falamos sobre sentimentos, quando relatamos emoções, quando expressamos as avalanches e catástrofes que são os relacionamentos amorosos. Afinal, não são meras coincidências ou repetições, amor é amor e sempre que uma pessoa esta enfeitiçada, tomada, possuída por essa sensação, a história se repete. Umas permanecem, outras terminam, outras são interrompidas pelo destino, outras acabam terminando antes mesmo de começar. E a única certeza que se tem, é de que até que aconteça de novo, aquele amor será único.

A questão é “se é amor, como pode acabar?”... Dizem que quando é amor é pra sempre, que quando é amor é diferente, que só se ama uma vez. E daí vão nascendo inúmeras metáforas e parábolas e contos e histórias e infinitas descrições de que a porra do amor é um sentimento que nunca será substituído, de que nunca será uma sensação que se repetira, de que quando acontecer você imediatamente saberá que é o tal “grande amor da sua vida”. E ai... Surgem na contrapartida, os pessimistas, os amargurados, os infelizes, os invejosos, os mal amados. Aqueles que aparecem sempre com um “coringa” de outro naipe pra foder com a sua “canastra” limpinha.  “Amor não existe. É só sexo! Dá pra amar uma pessoa e só querer trepar com outra. Pra que se prender? Ele(a) não te ama. Quem vai contar? Abre os olhos.” Pois é... Eu bem sei como é isso. E pra variar, vou à contra mão de tudo que dizem e afirmo que o amor tem mais formas do que a quantidade de vezes que podemos ver desenhos nas nuvens. Que o amor pode acontecer na vida de uma única pessoa mais vezes do que ela é capaz de contar os pingos de chuva. E que não importa o que dizem o que pesquisem o que escrevam, eu vou sempre acreditar no que eu estou sentindo.

Ele entrou na minha vida de uma forma muito peculiar. Acredito que inicialmente não havia um plano B. E que esbarrar em mim foi de duas uma “ou obra do destino ou mero acaso”. Essa é uma questão que talvez nem que queiramos, iremos descobrir. Mas isso não importa o que realmente vale enfatizar (ao menos pra mim) é que ninguém fica sem querer ficar ou parte sem querer partir. Então ficamos, ficamos próximos, viramos amigos, e a intimidade foi nos dando espaço. Fomos nos espalhando um na vida do outro, juntando os planos e logo, estávamos consolidados as juras e promessas que acabam se profetizando em meio a conversas bobas, em intervalos de filmes onde aquela cena fictícia nos convence de que fora da tela também é possível, ou através das dezenas de músicas enviadas que cantaram o que sentíamos como se fossem a nova forma de enviar cartas.

Eu levei um tempo pra me permitir, pra abrir mão dos meus medos, demorei pra acreditar que porra... “desta vez era amor”. Eu já havia passado perto desse tal de amor algumas vezes, tudo em mim sempre foi tão intenso, tão latente, que sinceramente, não acreditava que eu poderia sentir algo “muito diferente” do que já havia sentindo das outras vezes. Na verdade o meu temor era deixar que esse “tal amor” entrasse e me machucasse novamente. Mas ele foi astuto, jeitoso e muito convincente, e com isso, lá estava eu, acreditando mais uma vez nas histórias que batia no peito pra dizer que só aconteciam no cinema ou nos meus livros preferidos de cabeceira (é eu ainda sou dessas que empilha livros já lidos, no criado mudo). Lá estava eu, dando brechas, abrindo as janelas e tirando o pó das prateleiras do meu coração. E quando ele se mudou definitivamente pra dentro do meu peito, todo aquele peso que eu carregava foi desaparecendo.

Com ele, o amor parecia leve. As manhãs não eram mais pesarosas, minhas tardes já não passavam mais arrastadas, e a noite, minha parte favorita, era a que eu queria que passasse mais apressada, comecei a sentir uma necessitada absurda de ser acordada por ele "me sentia meio Bela Adormecida". Tudo virou do avesso, mudou de ritmo, me perdi nas datas agendadas a marca texto e discutia constantemente com o tempo. Todas as minhas prioridades deixaram de ser importantes. E fiz com que minha rotina se encaixasse na dele. Era tudo tão perfeitamente desorganizado que todo nosso roteiro errado, dava muito certo. Comecei a deixar os fantasmas de lado, passei a sorrir para o sol (o que é coisa muito rara) e dei inicio aos novos projetos. E mesmo sabendo que o terreno era arenoso, estávamos alicerçando nosso castelo. Piamente acreditei que nada, nada poderia ruir meu lar. Afinal, era nos braços dele que eu me sentia em casa. Fosse onde fosse, estivéssemos onde estivéssemos nada mais poderia me assustar, com ele eu não tinha mais medo de nada. Éramos nós contra todos. E assim foi por muito tempo, tempo o suficiente pra eu entender que o amor não exige modificações, que amor não pode ser construído em cima de promessas, que quando é amor, ele simplesmente é.

O amor não requer abdicações.
O amor não enjoa.
 O amor não muda as pessoas.
O amor não é opcional.
O amor lhe faz agir no impulso.
O amor te arranca do chão. 
O amor não se esconde.
O amor não machuca.

E foi então que me dei conta de que entre as oito principais regras eu estava violando a mais importante e não mencionada. Não há regras no amor. Então percebi que eu estava agarrada as promessas, as juras, os sonhos, aos clichês e metáforas. Criando sozinha, bases nas minhas próprias convicções e perspectivas. A minha cede de cura, o meu desespero pelo estancar das chagas passadas, o meu medo assustador de sentir meu coração outra vez ser partido, fez com que eu me apegasse a cada promessa de “felizes para sempre” como quem descobre a cura do câncer. Sem me dar conta de que assim como nos contos de fada, tudo que havia sido dito, prometido, jurado, vinha sendo decretado somente pela minha necessidade de acreditar. E de repente me vi vivendo num livro. E eu estava chegando ao capitulo final onde surpreendentemente a historia da uma puta reviravolta inesperada. O herói assassina o amante da esposa, a mocinha abandona o coral e o bom moço prometido e monta na harley de um desajustado sumindo na estrada. A carola é pega trepando com o encanador, e o velho da casa assombrada no final da rua aparece casado com uma garota que jurariam ser a bisneta dele. Todos esses pontos abririam “dezenas de pontos de vista”, dariam margens a centenas de especulações. Eu, ele, o ex herói, a nova ovelha negra, a recém vadia, o velho babaca... Quem pode apontar rotular, acusar? Quem pode, além de cada um de nós, saber como chegamos até cada ponto de nossas vidas? Quem, senão aquele que passou, sentiu e viveu, pode avalia e nomear com propriedade se tudo foi ou não motivado por amor? Somente nós, os protagonistas de nossas vidas, os roteiristas de nossas histórias, os donos de nossas emoções, poderemos classificar, julgar e decidir com propriedade o que é amor.

E o que posso afirmar com certeza é de que foi amor. Foi amor no primeiro roçar de lábios. Foi amor na primeira manhã mal humorada, foi amor na primeira explosão de fúria. Foi amor quando cortei a conversa e cantei do outro lado da linha. Foi amor na primeira dor de despedida ainda que a volta fosse breve, foi amor no permanecer em silencio enquanto a raiva emudecia a fala. Foi amor no romper em soluços com a dor da verdade, foi amor na rouquidão da garganta depois dos berros enfurecidos de ciúmes. Foi amor ao atirar os copos e cobrir o assoalho de cacos. Foi amor enquanto eu jogava suas roupas lá de cima, no capo do carro. Foi amor quando me deitei sozinha, vestindo sua camisa e assim tentando te sentir mais perto. Foi amor com juras rompidas, promessas quebradas... Será amor, quando esta dor passar, e a ferida fechar e eu sorrir de leve ao olhar a cicatriz deixada. Pra sempre será amor, ainda que eu leve uma vida, colando os pedaços do meu coração que se estraçalharam no chão do quarto mais uma vez, quando atirei contra a parede, seu porta retrato. Porque quando é amor é, e mesmo que termine. Nem com os erros cometidos, nem com os pecados apontados, nem com os corações partidos, se finda.
Por. Bell.B 

15 de outubro de 2016

Ela (A Carta) VII


Durante o dia, os afazeres, os compromissos, as visitas constantes. Alguns fatores a fizeram mudar a rotina e se tinha algo que a deixava completamente “transtornada” eram mudanças que exigissem mais do seu físico. Mexer em seu relógio biológico era tão perigoso quanto atirar pedras numa colmeia. Mas uma coisa que essa garota tinha de “incrível” era a capacidade de “sacrifício”. Se tinha algo que literalmente a fazia esquecer-se das suas overdoses de sono e seu total desprezo pelas primeiras horas do dia, era a família. Em resumo da opera, sua construção de cartas estava completamente no chão. E toda aquela sua ânsia de controle sobre tudo, toda aquela postura firme e convincente de “segurança” estava a um fio de ruir assim como seu castelo. Parece que de tanto dizer “meu lado certo é o errado”, assim se fez.

Fora todos os seus problemas (algo que não era especificamente só com ela, afinal, quem de nós não tem problemas?) ainda havia aquela situação indigesta. E voltamos a tão cansada e sofrida tecla... O que foi dito, o que não foi dito, o que talvez nunca seja. As duvidas, as certezas, as respostas, as perguntas. Tudo parece caminhar em circulo. E você fica ali, no meio de tudo esperando que ora ou outra, a coragem vença e resolva aquele emaranhado de inquietações que lhe causam tanto medo. Não é novidade pra ninguém que quando ela adota o silencio, a porra ficou seria. Logo ela, que fala pelos cotovelos, que eleva o tom por qualquer bobagem, que desce do salto e atira copos, talheres, que argumenta de peito cheio, quando se cala, de duas uma. Ou as palavras sumiram pelo choque, ou esta literalmente ferida por dentro. E ele a feriu, mas ela sempre arrumava uma maneira de se reinventar, de se restaurar, de lidar com a dor que vez por outra vinha forte e que bizarramente, ela a fazia aliviar buscando por ele. Entre os livros, sapiando os canais da TV, ouvindo repetidamente as canções que descaradamente “roubaram” pra eles, relendo suas cartas, ouvindo uma, duas, três, quatro e muitas vezes até dormir, os áudios dos seus melhores aos piores momentos, que salvou ironicamente numa pasta, nomeada “delete”. Sadismo? Masoquismo? A essa altura, o único nome que ela conseguia dar a essa “tortura” era “sinto muito, sinto mesmo”.

E de sentir ela entendia, ao menos do sentir dela. Por mais que se calasse, que se segurasse tudo que ela deixava de dizer, aquilo gritava constantemente em seu peito. Por mais que ela tentasse disfarçar, continuar com sua vida, vez ou outra suas emoções passavam pela apertada aresta e se faziam enxergar. Fosse no marejar dos olhos no meio de uma conversa casual num churrasco de domingo, ou sozinha, pega repentinamente no banho ou mesmo passando um café no meio da madrugada sozinha na cozinha. As coisas com ela não tinham aviso, não havia alertas ou toques de recolher. E quando acontecia, ela sequer era capaz de conter. A avalanche de raiva, a inundação do choro ou mesmo a euforia do riso, simplesmente rompiam. E com isso ela estava acostumada, fosse o que fosse, vinha e pronto. Ela só precisava de um tempo, daquele tempo (maldito tempo). Dela com ela. Onde nada nem ninguém poderia ou conseguiria salva-la. Ela havia adotado essa técnica como rota de fuga. Como se em seu coração houvesse uma passagem secreta (ou um quarto do pânico, já que quando ela entrava naquela porra de bolha, ou casulo ou sei lá que caralho a quatro, não saia por nada até se sentir segura).

Noite dessas, ela se levantou (tem se levantado muito) e notou que havia um envelope debaixo da porta. Cerrou o cenho, encolheu as pálpebras e se aproximou. Assim que o apanhou sentiu ressecar a garganta, percebeu que não havia remetente, sequer um carimbo que pudesse lhe dar pistas de quem o teria colocado ali. Mas seu coração ou seu sexto sentindo, seu dom místico (fada/bruxa como dizem por ai) soou o alarme. Respirou algumas vezes, tirou os fones e alinhou o envelope sobre a mesa. As mãos espalmaram a superfície gelada e o ar começou a faltar antes mesmo dela começar a passar os olhos no que estava escrito ali, se é que tinha algo escrito. Milhões de coisas passaram pela sua cabeça, agora a certeza era tão segura que dezenas de perguntas, respostas, novas, antigas, começara, a sufocar sua garganta e pesar em sua cabeça. Ela abriu o envelope e assim que sua retina passou nas primeiras palavras ela sentiu o frio percorrer-lhe a espinha. 

Rapidamente leu, depois leu mais uma, duas, e releu, e espremeu as palavras, e se alimentou das frases, e consumiu as emoções que vieram cunhadas nas palavras dele, e sentiu despertar a raiva que lutou pra adormecer, e seu rosto ardia respondendo a emoção que não podia conter. E seus olhos inundaram, e seus sentimentos acordaram como se nunca tivessem corrido o risco de morrer. Estaria ele tentando pela ultima vez mostrar a ela, que embora estivesse há 179 dias fora de casa, ela não havia em momento algum, deixado de estar com ela? Estaria ele, desta vez disposto há atropelar esses meses e provar pra ela, que não há lugar que ele queira estar, senão com ela? Estariam eles, dispostos a esquecer, a sentar e esclarecer todas as duvidas pra poderem deixar essas 4.296 horas pra trás e recomeçarem o resto dos seus dias juntos?

Ela apanhou aquela carta, colocou-a sobre a cama e mais uma vez leu, iria responder, desta vez diretamente, sem sombras, sem fantasmas, como sempre o fez. Do jeito dela, franco, sincero, direto. Na lata, como ela gosta dizer.
Por. Bell.B

5 de outubro de 2016

Ela (Escolha) VI

Fui atrás dela, não do jeito que ela esperava ou talvez imaginasse, mas fui. Vez por outra dava um jeito de chamar a atenção, de me fazer enxergar, eu tentei. Juro que fiz tudo que acredito ter sido possível pra que ela entendesse meu arrependimento, minha necessidade de estar com ela, à falta do caralho que ela me fazia/faz. Repito, cantei, escrevi cartas, deixei rastros, até casualmente puxava assunto sobre algo que fizesse a conversa rumar até ela. Tentar a ponte, provocar a curiosidade nela de quem sabe “querer saber o porquê de eu estar ainda falando sobre ela ou querendo saber sobre”. Maldita! Em momento algum ela pareceu estar a par de tudo, embora eu aposte no “descaso estratégico” dela. Ela quando quer se faz mais fria que Ridge. E puta que pariu, como isso feri. Ficar ali, na expectativa se consegui ou não tocá-la é pior que esperar na fila da morte. Ao menos nesta fila, se tem certeza, já na dela... Ual!

Hoje me peguei pensando no dia em que ela “autoritariamente” me pediu pra ler a carta... Tentei hesitar, argumentar, mas ela sabe bem como comandar a cena quando quer. Rapidamente passei os olhos em cada palavra antes de subir o tom. Pensei por alguns segundos que eu não conseguiria. Acho que na altura do campeonato, estava já, um tanto descrente daquilo. Mas mesmo assim prossegui. É claro que eu poderia afirmar que o fiz por gentileza, ou pra não ir à contramão do que havia riscado ali anteriormente, mas quando orei a primeira frase, meu coração acelerou. Firme, prossegui li cada palavra como se aquele dia fosse o ultimo, e quando terminei, o silencio dela embora curto, foi ensurdecedor. Confesso que naquele momento não consegui prever sua reação. E isso foi ainda mais assustador. Eu a conheço tão bem, talvez mais que a mim mesmo. Ela balbuciou alguma coisa, mas eu estava tenso demais pra retrucar ou mesmo iniciar um assunto que pudesse puxar uma conversa, já era tarde e havia me esquecido de alguns de seus compromissos. A ligação se encerrou e por um momento pensei que ela tivesse desligado, eu tentei retornar, mas por cair na caixa desisti depois da primeira tentativa, foi melhor assim. Depois nos falamos por mensagens e ela explicou que a ligação caiu e que também tentou retornar. Depois que li a mensagem dela acabei rindo. Engraçado como a insistência vai diminuindo quando determinados fatores se instalam no caminho. Se fossem alguns meses atrás, passaríamos a noite inteira tentando nos comunicar. Pior... Sem duvida quando conseguíssemos ela surtaria. Entre todas as coisas que a tiravam do sério, uma delas era “ouvir o terceiro toque da chamada”. Como isso a irritava. O mundo todo poderia ligar pra ela, e certamente ela caminharia até o aparelho com a maior calma, fossem dois, três, vinte toques. Agora com ela não, AI DE VOCÊ, NÃO ATENDER NO SEGUNDO. Puta que pariu, o discurso era longo.

Por fim, depois disso não mais liguei, ela também não retornou. Tudo ficou subentendido ou enterrado num canto onde não sei bem ao certo como definir. Quando o assunto é a “sua mente” o acesso é além de um puta labirinto, restrito. Nunca se saberá com exatidão o que de fato ela esta pensando ou se esta. E essa é uma das coisas nela que me enlouquecem. Isso é o que fode comigo. Sentir e saber sobre o que ela sente e não conseguir premeditar suas reações. Engana-se quem pensa estar sempre a um passo a sua frente. Ela insiste em dizer que é um livro aberto, que não tem segredos, que responde, mostra e esclarece qualquer duvida, mas cada vez que ela me responde uma inquietação, faz brotar um novo mistério. Eu estou cansado. Sinceramente?! Estou farto! Eu já vivi pra caralho, já superei situações das quais nem imaginaria que seria capaz de suportar. Eu sei que não estou preparado pra te esquecer, sei também que isso muito provavelmente jamais irá acontecer. Certas pessoas passam por nós e deixam rastros que nem mesmo o tempo será capaz de apagar. Mas assim como não estou pronto pra me curar de você, também não estou disposto a desfalecer por esse sentimento pelo qual acreditava que me faria viver.

Eu também achava que seria impossível largar o cigarro, e veja só... Fui diminuindo, depois optei por esses adesivos e comecei a usar o eletrônico. Logo, as crises de abstinência foram diminuindo, meu corpo desintoxicando e minha mente compreendendo que eu não precisava mais daquilo. Força de vontade, decisão, escolha! Eu escolhi parar, decidi que não poderia continuar refém de algo tão banal e destrutivo. Não se ofenda, em momento algum estou lhe comparando aos malefícios e degradações que o cigarro causa ao organismo, estou apenas esclarecendo (você adora essa palavra, “esclarecendo” não?! rs) minha postura em relação as minhas decisões. Acho que você deveria fazer o mesmo, esse fode ou sai de cima não é pra mim. E por mais que eu queira “ser pra você”, não posso entrar na tempestade, tira-la da chuva, e trazê-la pra casa, enquanto você continuar a ser para-raios.

Por falar em raios, dia desses os trovões assustavam lá fora, eu fiquei deitado na cama pensando em quantos temporais foram nossa trilha sonora, em quantos cafés e cigarros fumamos aqui dentro deixando os cômodos impregnados do cheiro do tabaco e do nosso suor. Repuxei o nariz, fiz uma careta, imaginei você fazendo varias, se ainda estivesse comigo, me satirizando por agora implicar com isso. Senti uma pontinha de vontade de tragar, de leve, longe, nada enlouquecedor. Sorri outra vez, olhando aquele vazio do meu quarto, cheio de ti por todos os lados. Murmurei um foda-se pra vontade de fumar e me rendi ao desejo de me dar varias overdoses de você e continuei ali. Te vi passar pelo pé da cama enquanto saia do banheiro enrolada na toalha e com a outra esfregava no cabelo. Meu quarto foi invadido pelo vapor do chuveiro, e me lembro de vê-la soltar a toalha e deitar em cima de mim. O cheiro do teu cabelo molhado, a temperatura quente do teu corpo devido ao banho escaldante que sei que ama tomar e as ruguinhas nas pontas dos teus dedos deslizando em meu peito de tanto demorar debaixo d’água, são as coisas que mais gosto de lembrar. Ahh menina se soubesses, se conseguisse compreender que a falta que me faz é maior do que minha coragem de te resgatar dessa tempestade, certamente sairia dessa chuva e voltaria pra casa.

Eu sei que não posso mudar o que já foi feito, mas uma vez você me disse que podemos acreditar no impossível e assim, ele será possível. Eu acredito mas não posso acreditar nele, sozinho. Escolha acreditar comigo.
                                                                       Por. Bell.B

21 de setembro de 2016

Ela (Recaída) V

Tudo continuo a seguir, afinal, como diz Shakespeare “a vida não para pra você juntar os pedaços”. Sempre de longe, por intermédios de outra pessoa eu dava um jeito de saber dela. Tomei algumas medidas radicais, mas isso não me fez sofrer menos ou me sentir em paz. Era sempre angustiante querer alcançar, saber dela e não ter coragem de me aproximar. Até porque, essa não foi uma escolha minha. Então adotei a conduta e apenas fui adiante. Acontece que essa “história de não olhar pra trás” não funciona na pratica. Porque eu sequer conseguia ir pra frente sem imaginá-la comigo. Eu até tentei frequentar outros bares, ir a outros lugares, degustar outras bocas, focar em outros corpos. Mas desde que ela entrou na minha vida, o que eu conseguia com as demais, era só prazer. O meu conceito sobre “prazeres” abriu um leque de novas definições. Era possível sim, ter tesão, gozar gostoso, curtir o momento, mas eu não sei porque caralhos, faltava algo. Peguei-me pensando...

Talvez o cigarro partilhado depois do êxtase e da explosão dos nossos orgasmos e noites selvagens e despudoradas. Talvez a coca trincando de gelada em contraste dos nossos corpos inflamados e suados. Talvez a música baixa perdendo o tom para as respirações descompassadas. (Ahhh como era incrível ouvir seu coração batendo acelerado e sentir o ar quase não entrar em seus pulmões enquanto ela sussurrava seu “ódio por mim”). Ver suas maçãs avermelhadas e seu cabelo desgrenhado colado de suor no rosto, só não era mais prazeroso que ouvir seus urros e gemidos quando alcançava o orgasmo. Talvez eu sinta falta de coisas das quais nem são perceptíveis no dia a dia dos casais apaixonados. Como ficar admirando seu corpo emaranhado no lençol, ainda impregnado do nosso cheiro. Ou de ouvi-la comentando com um sorriso vadio num tom totalmente angelical sobre as marcas que nem de longe marcavam sua pele como sei que timbrei sua alma (esse contraste donzela/puta dela me alienava o juízo). Porra... É isso! É isso que falta em todas as outras. Detalhes. Minúcias das quais aprendi com ela, fazer toda a diferença. Talvez eu precise parar de garimpar nas outras, ela. Outra coisa que ela sempre enfatizou “não me compare”, e que agora eu tinha plena certeza. Ela não era, não é nada parecida, acho que ela tem razão ao dizer que Deus quando a fez, jogou a forma fora. De fato, ela era única.

Eu parei com algumas coisas, e uma delas foi com um vicio do qual aprendi a apreciar ainda mais depois dela. Eu não fiz isso conscientemente por conta dela, já era um projeto. Aproveitei a mudança e minha tentativa de voltar ao controle e parei de fumar (fiquei por varias vezes imaginando o quão surpresa ela ficaria com essa noticia e o quanto seria complicado pra mim largar esta merda, se estive com ela). Não foi a coisa mais sensata que fiz, afinal, cortar duas dependências de uma vez não é fácil. Pra fazer isso ou precisa ser muito louco ou muito seguro. E entre essas duas coisas, o que sempre fui muito (segundo ela) é maluco. De inicio não foi fácil, assim como me afastar dela, também não foi. Mas quando temos força de vontade (e ajuda) a coisas vai que é uma beleza. Acredito que essa mulher entrou na minha vida pra me mostrar “forças” das quais eu não tinha a menor ideia que possuía. Passei pelos sintomas de abstinência, e curiosamente foram menos danosos do que me afastar dela. Aparentemente eu estava novamente com as rédeas (da minha vida) nas mãos. Não curado, mas no controle. Foi quando o “bip soou” e novamente era ela. Por alguns segundos eu tentei ser racional, queria ignorar e deixar pra lá, continuar como estava. Mas como sempre, tudo que vinha dela fugia as minhas vontades e passavam a sucumbir as dela.

Acabou que falamos sobre coisas que já deveriam estar enterradas, mas por uma razão muito peculiar dela, não estavam. Essa mania dela de arrastar fantasmas me enlouquecia. Eu querendo ir pra frente, mas ela insistia em recuar dois passos sempre que eu dava um na sua direção. (Talvez eu precisasse de um padre, quem sabe exorcizando o que ainda pesa, conseguimos ir adiante mais leves...) As horas foram passando, coisas do passado voltando, novas inquietações submergindo. As emoções adormecidas aflorando, a ansiedade subindo, ela me questionando sobre coisas que eu preferia não responder, eu respondendo coisas que sabia que provavelmente botaria tudo a perder. Droga... eu novamente perdi o discurso entre as perguntas bizarras a assombrosas dela. Do nada ela me pediu pra ler uma carta que havia escrito e assim o fiz, nervoso mas certo de que aquelas apalavras haviam penetrado a muralha de gelo que eu havia ajudado a construir entre nós. Eu tinha outras coisas pra falar, mas naquele momento, tudo se esvaiu. Nunca que consigo falar pra ela, o que ensaio sozinho. Voltamos aquele momento em que há muito a ser dito, mas ninguém fala o que é preciso. Alguns pontos esclarecidos, outros indefinidos, cá estamos nós novamente. Nesse fode e não sai de cima. Eu quero, ela quer ninguém se pronuncia. Nos despedimos sem saber se no outro dia nos falaríamos...

Agora me pego pensando, no porque respondi a mensagem e liguei. Fico puto com as coisas que ela me faz sentir. É como se eu ainda fosse seu dono. Como se ninguém fosse capaz de supri-la como eu a satisfaço, como se ninguém me fosse essencial como necessito estar com ela. Não consigo recuar... Eu simplesmente não tenho forças ou sequer vontade de ignora-la. Quando vi a mensagem eu tinha certeza que retornar seria como “aceitar um trago” com a certeza de que não voltaria a fumar. Impossível, claro. Mas essa maldita mulher era de fato, um vicio oito vezes pior que a nicotina. E pra cura dela, eu de fato não estou preparado ainda.
                                                                         Por. Bell.B